O que surge entre mundos?

ìdòwú

entre mundos

 ìdòwú é uma plataforma permanente de investigação intelectual, imaginativa e cultural do Instituto Toriba, desenvolvida em parceria estratégica de longo prazo com o pensador nigeriano Bàyó Akómoláfé.


Seu foco é cultivar novos modos de pensamento, mais situados, relacionais e atentos à complexidade entre instituições, lideranças e coletivos que atuam em contextos de transição acelerada, a partir do Sul Global.

ìdòwú

A plataforma parte de uma premissa central: as ferramentas conceituais mais usadas para interpretar e enfrentar as crises contemporâneas, políticas, climáticas, tecnológicas e democráticas, foram construídas para um mundo que já não existe. Organizando a realidade em pares de opostos (progresso/colapso, inovação/regulação, vitória/derrota), essas ferramentas comprimem a imaginação justamente quando mais precisamos dela.

ìdòwú propõe uma saída diferente: desloca o foco das disputas argumentativas que reproduzem os mesmos marcos para o cultivo de uma nova capacidade perceptiva, a habilidade de habitar a complexidade, pensar nos intervalos e agir a partir de horizontes mais amplos do que o urgente e o imediato. Por isso se organiza a partir de uma indagação simples e profunda, que atravessa todo o programa:

“O que surge entre os mundos quando as estruturas enrijecidas deixam de se sustentar?”

O povo Iorubá da África Ocidental tem um ditado incomum.

É um ditado que vem das profundezas ocultas da sua circunstância excepcional iluminadas pela lua, como o povo mais fecundo em dar à luz gêmeos na terra.

É verdade: o povo Iorubá dá à luz mais gêmeos do que qualquer outra comunidade no mundo, a  média de gêmeos por nascimento supera em muito os seus concorrentes mais próximos na Ásia.

Como se poderia esperar, os vividos mundos iorubá são concebidos dentro de algumas das mais fascinantes e únicas histórias culturais, mitos e crenças sobre gêmeos. Por um lado, eles chamam aos seus gêmeos ibeji, um termo que é provavelmente tão popular na terra Iorubá quanto nas Américas, sem dúvida devido (em parte) ao tráfico transatlântico de escravos. 

Quando os gritos dos recém-nascidos ibeji tomam conta do ar, as famílias Iorubá frequentemente celebram a sua chegada com pompa e orações. É um momento profundamente ostentoso na vida da família ser presenteada com a chegada de gêmeos. Um momento especial – mesmo que seja mais comum entre os iorubás!

Por que os iorubás celebram os gêmeos como o fazem? Não há respostas fáceis, mas há pistas intrigantes a serem encontradas na vasta e lírica cosmopoética de gêmeos, que têm nutrido os Iorubás por séculos.

 Um mito sugere que os gêmeos são uma alma singular e poderosa que reconheceu-se demasiado grande para caber num só corpo. E assim, a alma migrante – ainda sendo gestada no ventre da mãe – adentra na vida forjando dois corpos ao invés de um.

Mas os gêmeos não são só diversão e celebração. Algo sério e grave está em jogo na ocasião do seu nascimento. Algo que o povo iorubá observou silenciosamente através das suas experiências e codificou nos seus conhecimentos duramente conquistados com um ditado:
Uma mãe que tem gêmeos e não tem um ìdòwú enlouquecerá.

Os gêmeos sempre chegavam com uma queimação febril, uma energia totalizante que ameaçava consumir as energias da mãe (e da comunidade). O padrão repetitivo da esquerda e da direita, táíwò e kéhìndé, o tique-taque do relógio incessante, o binário virtuoso estabelecido no concreto, a duplicação da contagem. Algo sobre os gêmeos garantia a celebração da linhagem, mas simultaneamente a aprisionava firmemente em um padrão repetitivo opressor.

E assim, junto à alegria de novos nascimentos de gêmeos, veio o anseio por um terceiro: aquele que quebra o padrão de repetição. Uma criança que se juntou com o par.

ìdòwú.

Instituto Toriba + Dancing with Mountains:
Série ìdòwú e o encontro planetário

_JUL, 21 – XXX – SP

Ginga!
A estranha paramorfologia do corpo cativo

Os corpos africanos foram imaginados como fiéis às fronteiras taxonômicas – linhas traçadas que os forçavam a imaginários subjacentes aos interesses imperiais. O corpo negro estava imóvel, petrificado, fixado em espaços pré-determinados, como os espaços de 6 pés por 1 pé e 4 polegadas que ocupavam a bordo dos navios.

Mas aqueles corpos negros não estavam nada imóveis. Eles estavam se movendo. Eles foram produzidos pela Passagem do Meio, batidos em carne dócil, enrolados em formas fáceis de usar, marcados e cortados nos territórios violentamente inclusivos de seus captores, dançados até a submissão, renomeados, arquivados, vigiados, registrados e preparados para o cativeiro vitalício. De certa forma, a indústria da escravidão – por suas próprias operações – demonstrou que os corpos são sempre matérias intermediárias. Corpos não começam exatamente em um lugar e terminam em outro. Corpos não são produtos frescos. Corpos são depósitos de forças que os precedem. Corpos são onde forças políticas, imperativos coloniais, marcas tecnológicas, ativismos bacterianos, desgosto, irritação e amor colidem repetidamente.

Em um tempo de violência genocida, muros fascistas, mudanças tecnológicas, vigilância estatal, pandemias e futuros ciborgues, o corpo está mais uma vez na vanguarda da nossa imaginação. O que fazemos com ele? Como o entendemos? Esta era a pergunta de Baruch Spinoza — o que pode um corpo? Onde cai um corpo nestes tempos em que as redes de segurança apresentam furos? Como um corpo se move quando o movimento é racializado e a mobilidade é um privilégio? Para onde vai um corpo quando a direção responde a forças com as quais não consentimos?
Báyò Akómoláfé

21 de Julho de 2026 às 15h (revisar)

CASA DO POVO – Rua três Rios 252 – Bom Retiro – SP

Esta palestra fundamenta a série no corpo — especificamente no corpo negro no Brasil, o corpo que cruzou o Atlântico, o corpo que a acomodação colonial capturou e que continuou produzindo, na captura, movimentos que a captura não conseguiu conter.

Báyò Akómoláfé é o Professor Distinto Hubert H. Humphrey de Estudos Americanos na Macalester College, Curador-Chefe da The Emergence Network e co-diretor da School of the Cracks. Como Membro Distinto do Instituto Toriba, ele está comprometido com uma presença viva e sustentada no Brasil — não como visitante, mas como parente.
Seu trabalho explora as rachaduras na modernidade: os lugares onde o que construímos começa a se compostar em algo que ainda não podemos nomear.

Èṣù léhìn ibéjì.
O trapaceiro vem depois dos gêmeos.

Àṣẹ.