O que surge entre mundos?
ìdòwú
entre mundos
ìdòwú é uma plataforma permanente de investigação intelectual, imaginativa e cultural do Instituto Toriba, desenvolvida em parceria estratégica de longo prazo com o pensador nigeriano Bàyó Akómoláfé.
Seu foco é cultivar novos modos de pensamento, mais situados, relacionais e atentos à complexidade entre instituições, lideranças e coletivos que atuam em contextos de transição acelerada, a partir do Sul Global.
ìdòwú
O povo Iorubá da África Ocidental tem um ditado incomum.
É um ditado que vem das profundezas ocultas da sua circunstância excepcional iluminadas pela lua, como o povo mais fecundo em dar à luz gêmeos na terra.
É verdade: o povo Iorubá dá à luz mais gêmeos do que qualquer outra comunidade no mundo, a média de gêmeos por nascimento supera em muito os seus concorrentes mais próximos na Ásia.
Como se poderia esperar, os “mundos vividos iorubá” são concebidos dentro de algumas das mais fascinantes e únicas histórias culturais, mitos e crenças sobre gêmeos. Por um lado, eles chamam aos seus gêmeos IBÉJÌ, um termo que é provavelmente tão popular na Iorubalândia quanto nas Américas, sem dúvida devido (em parte) ao tráfico transatlântico de escravos.
Quando os gritos dos recém-nascidos ibéjì tomam conta do ar, as famílias Iorubá frequentemente celebram a sua chegada com pompa e orações. É um momento profundamente ostentoso na vida da família ser presenteada com a chegada de gêmeos. Um momento especial – mesmo que seja mais comum entre os iorubás!
Por que os iorubás celebram os gêmeos como o fazem? Não há respostas fáceis, mas há pistas intrigantes a serem encontradas na vasta e lírica cosmopoética de gêmeos, que têm nutrido os Iorubás por séculos. Um mito sugere que os gêmeos são uma alma singular e poderosa que reconheceu-se demasiado grande para caber num só corpo. E assim, a alma migrante – ainda sendo gestada no ventre da mãe – adentra na vida forjando dois corpos ao invés de um.
Os gêmeos são tão importantes para os iorubás que não se pode dar nada como garantido, nem mesmo a óbvia trivialidade da ordem de nascimento. É necessária uma nova concepção de tempo para dar conta do que os gêmeos estão para fazer ao mundo: diz-se que no ventre da mãe de gêmeos, o mais velho do par envia o mais novo para até o mundo, investigar e anunciar se este é seguro chorando alto. Neste sentido, Kehinde, aquele que é contado como o mais novo através do limiar matricial, é considerado o mais velho. Isto é um enlouquecimento, uma desestabilização do Tempo. Uma queerização de posições. Uma reviravolta alegre nas lógicas de originalidade e destinação.
Mas os gêmeos não são só diversão e celebração. Algo sério e grave está em jogo na ocasião do seu nascimento. Algo que o povo iorubá observou silenciosamente através das suas experiências e codificou nos seus conhecimentos duramente conquistados com um ditado:
Uma mãe que tem gêmeos e não tem um ìdòwú enlouquecerá.
Os gêmeos sempre chegavam com uma queimação febril, uma energia totalizante que ameaçava consumir as energias da mãe (e da comunidade). O padrão repetitivo da esquerda e da direita, Taiwo e Kehinde, o tique-taque do relógio incessante, o binário virtuoso estabelecido no concreto, a duplicação da contagem. Algo sobre os gêmeos garantia a celebração da linhagem, mas simultaneamente a aprisionava firmemente em um padrão repetitivo opressor.
E assim, junto à alegria de novos nascimentos de gêmeos, veio o anseio por um terceiro: aquele que quebra o padrão de repetição. Uma criança que se juntou com o par.
ìdòwú.

Bayo Akomolafe é filósofo, escritor, ativista, professor de psicologia e diretor executivo da Emergence Network.